Truque para ajudar a saber quais as bactérias Gram-positivas e as Gram-negativas
“Todos os homens são Gram-positivos, exceto o Haemophilus, que é homem e é Gram-negativo.”
O Prof. Dr. Júlio Machado de Sousa Vaz (1909-1999), foi médico e professor universitário. De entre as áreas a que se dedicou, lecionou Bacteriologia e Parasitologia na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Portugal.
Nas suas aulas, partilhava com os seus alunos a frase destacada acima.
A frase era um guia de como saber, a partir do nome de uma bactéria, se esta era ou não Gram-positiva.
Foi uma pessoa que foi sua aluna que a partilhou comigo (e que acredita que a memória não a trai…).
Não sei se foi o próprio Prof. Machado Vaz o autor deste lembrete. Caso não tenha sido, o meu pedido de perdão à pessoa que é a fonte original, por não conseguir fazer-lhe a devida referência.
Tendo em conta o contexto académico e profissional do Professor, vou estabelecer que este ensinamento seja para aplicação às bactérias que causam doença humana.
O que quer a frase dizer?
A frase quer dizer que: as bactérias cujo nome de género soe a um nome de homem, podemos apostar que são Gram-positivas, a não ser a bactéria Haemophilus, que, apesar de ter um nome que soa a nome de homem, é Gram-negativa.
Por exemplo, Actinomyces, Bacillus, Clostridium, ou Staphylococcus, diríamos que são nomes “masculinos”, sendo que de facto estas são bactérias Gram-positivas.
[Para esclarecimento: por exemplo, Haemophilus é um nome de género e Haemophilus influenzae é o nome de uma espécie pertencente ao género Haemophilus.]
Ao longo do tempo, fui testando este ensinamento, explorando também uma sua face reversa que quiçá nos poderia dizer que as bactérias cujo nome de género soe a um nome de mulher são Gram-negativas.
Por exemplo, Escherichia, Klebsiella, Neisseria ou Pseudomonas, diríamos que são nomes “femininos”, sendo que de facto estas são bactérias Gram-negativas (e há muitas mais!).
No entanto, quer nos “homens” quer nas “mulheres”, fui encontrando muitas exceções.
Deixo a seguir uma lista — não exaustiva — de exceções. Ou melhor, das minhas exceções, pois admito que existam nomes que eu considero masculinos e que outra pessoa considera femininos ou neutros (e vice-versa).
Bactérias com nomes “femininos” e que são Gram-positivas: |
Bactérias com nomes “masculinos” e que são Gram-negativas: |
|---|---|
| Erysipelothrix | Acinetobacter |
| Listeria | Aggregatibacter |
| Nocardia | Bacteroides |
| Parvimonas | Campylobacter |
| Tropheryma | Cardiobacterium |
| (…) | Citrobacter |
| Cronobacter | |
| Enterobacter | |
| Fusobacterium | |
| Haemophilus | |
| Helicobacter | |
| Proteus | |
| Vibrio | |
| (…) |
O meu lembrete pessoal, que tem sido e que provavelmente continuará a ser alvo de refinamentos ao longo do tempo, é:
“Os homens são Gram-positivos, exceto: Haemophilus, Proteus e Vibrio, e ainda os que começam e acabam em «bacter» (Bacteroides, Acinetobacter, Campylobacter, Enterobacter, Helicobacter, …) — que são Gram-negativos. [Deixo a nota que existem muitos géneros com “bacter” no meio do nome que também são Gram-negativos — na lista acima temos os exemplos Cardiobacterium e Fusobacterium —, mas há também vários que não o são.]
As mulheres são Gram-negativas, exceto: Listeria e Nocardia — que são Gram-positivas.”
Outras exceções tenho sempre presente que existem, mas excluí-as do meu lembrete (e da lista acima) por serem bactérias menos comummente referidas ou encontradas na prática clínica, ou para as quais a coloração Gram não é um inequívoco apoio para a identificação. Se alguma delas me suscitar dúvidas, recorro aos meus apontamentos ou faço uma nova pesquisa.
Utilizando estas deixas, cada um poderá formular o lembrete que lhe der “mais jeito”, mais ou menos completo consoante as exceções que esteja disposto a fixar.
Naturalmente, estes auxiliares de memória têm em conta a nomenclatura das bactérias no momento, nomenclatura esta que vai sofrendo alterações à medida que novos dados científicos levam a uma reclassificação destes microrganismos.
Apesar das várias bactérias que se desviam à regra do Prof. Machado Vaz (e não há regra sem exceção…), ela é, na minha opinião, muitíssimo perspicaz e preciosa.
Obrigada ao Prof. Machado Vaz pela transmissão do seu conhecimento e obrigada aos seus alunos que ainda o partilham.
A. M.